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"À CONVERSA COM…" Catarina Campino e THE RADIOTRON


Catarina Campino: I Had a Dream and now, I am living it!

“I have forced to contradict myself in order to avoid conforming to my own taste.”
Marcel Duchamp


(todas as fotos são de minha autoria salvo quando mencionado o contrário)


Devo confessar que esta foi das entrevistas mais complicadas que fiz até hoje e sinto-me agora orgulhosa de a poder partilhar com todos. Complicada porquê? Hoje escrevo-vos sobre uma mulher que personifica a 100% a expressão “dos 7 ofícios”, (ou das “7 artes”); fui conversar com Catarina Campino, no espaço do Teatro Praga em Lisboa.


É de grande responsabilidade retratar uma mulher plurivalente como Catarina Campino, vinda de uma geração de artistas de renome em diversificadas áreas, com um percurso incrível e com uma “pegada” artística gigante. À medida que a conversa se desenrola é claramente perceptível uma acentuada característica arquivista de informação e, com uma especial atenção sociológica e humanista, descreve-me o seu “caminho” até aos dias de hoje. (ouvir o áudio é impreterível)


Licenciada em Artes Plásticas no ar.co, iniciou-se no curso de Pintura, mas rapidamente percebe que o caminho seria o Desenho, principalmente quando descobre que este era lecionado (pelos professores e artistas João Queiroz e Miguel Branco) como “linguagem de projecto” – “uma espécie de ferramenta do pensamento em ação” – sendo que se aplicava o entender da obra como um desígnio criador de “real” e as técnicas apenas como mecanismos para materializar a mesma.

A certo ponto decide fazer uma pausa na sua formação, e o seu percurso passa para o Vídeo/Cinema que desenvolve numa perspectiva de pensamento cruzado com a Arte e a performatividade humana, muito por influência e “às ordens” do realizador e cine-arquivista Edgar Pêra, seu namorado na altura. Esta fase também lhe permitiu apropriar-se do som e da Música como matérias plásticas para a sua obra. Outra das grandes influências assumidas desta “Duchampiana de gema” é a artista Pipilotti Rist, que menciona quando explica o sentido da música no seu trabalho: “Aprendemos mais em 3 minutos de uma canção do que em 3 anos na escola.”

Na verdade a música esteve sempre presente, direta ou indiretamente, foi um elemento transversal e de união entre as várias áreas, pela sua importância através da palavra escrita na mesma e da capacidade que tem de ficcionar a “realidade” dando-lhe uma banda sonora, pois (e parafraseando a Catarina) “a realidade é uma criação autoral nossa, resulta de um investimento de sentido consciente sobre os dados sensoriais que nos são transmitidos”. (conjugação da 1ª Arte – Música/som- com a 6ª - a palavra/Literatura)

Entretanto volta ao ar.co, tendo então como media privilegiados o vídeo, o som, a performance e a fotografia, reiniciando o seu trabalho com a criação de “sonodramas” – uma espécie de vídeos “cegos” em audio, nos quais a narração proposta era fundamentada pelo trabalho plástico do espaço.

A Catarina resume o trabalho que desenvolveu em 15 anos como “nunca fiz as coisas como é suposto fazer”, encarnando assumidamente a imagem de eterna rebelde com papel de “enfant terrible” para com os elementos culturais que a envolvem, que a tem vindo a motivar e caracterizar desde sempre.

Ao longo da conversa percebi que esta é “uma história verídica” e exemplo prático em como nada acontece por acaso, e mesmo quando não lhe encontramos o propósito no momento, mais tarde ou mais cedo, ele é-nos dado.

Outro dos pontos de viragem no seu percurso é um convite feito por Maria de Assis Swinnerton, diretora da ACARTE da Gulbenkian, a artistas com o tema em discussão “o que é que uma instituição programadora deve ser para os artistas?”. Aqui conhece André Teodósio e Pedro Penim, ambos atores e encenadores, bem como membros fundadores do Teatro Praga e os destinos cruzam-se com um incentivo “ao matrimónio artístico” proposto pela “madrinha” Maris de Assis.

Surge assim na conversa o Teatro Praga a numerada como quinta arte e mais uma a ser numerada no percurso da Catarina.  Este encontro, que revela ser biunívoco em termos de aprendizagem, foi essencial para aprender a trabalhar coletivamente – em conversa, a Catarina refere alguns projetos que desenvolveu conjuntamente com o Teatro Praga, a sua família artística (e “crew”) de afinidades electivas, dando enfâse à importância que o mesmo teve, e ainda tem, na sua formação pessoal e profissional.

Importante também referir o sítio onde esta conversa teve lugar: o DNA Lisboa – District of New Art.  Este surge como uma proposta do Teatro Praga para a Escola das Gaivotas, na zona histórica da capital. Um espaço que quer reunir artistas, comunidade local, estudantes, art lovers, atrair turistas e onde se afere a vitalidade do que acontece e se cria agora e onde se antevê o por vir. E com este objetivo convidam a Catarina a montar “atelier” nesse mesmo espaço, o que a ela lhe pareceu desnecessário na altura, pois “o meu atelier é a minha cabeça” afirma.

Entretanto, sentindo que precisava de um desafio físico – algo que tinha descurado por uns tempos –, e também por alguma confessada saturação, muda mais uma vez de área, porque “para fazer coisas, tens de ter tempo para viver. Se não vives, as coisas acabam por ser sobre elas próprias, começam a ser autofágicas”.

Por casualidade descobre a FullOut Dance Academy, no Saldanha, onde se decide inscrever. Começa então a desenvolver um vínculo com o trabalho físico de movimento, primeiro pelo Fitness, passando depois para o Jazz, e ainda o Ballet e o Contemporâneo, conciliado com Barra de Chão e Musicais.

Quando passou para o Hip Hop, seguindo a sua tendência de estudiosa e arquivista de tudo em que se envolve, descobre o mundo desta cultura que se revelou mais profunda do que imaginaria – cultura eminentemente aberta, mas ao mesmo tempo paradoxalmente tradicional, onde a diversidade e a expressão da singularidade da personalidade de cada indivíduo é não só permitida como sobejamente valorizada.

O Hip Hop – conta-me – é uma cultura que nasce de uma revolução e os seus princípios fundadores e de organização social foram conscientemente engendrados de raíz. Foi vítima de vários ataques comerciais e sociais nos anos 80 o que a leva a tornar-se mais underground, ressurgindo mais tarde na Europa, concretamente na Alemanha e na França, antes de regressar aos USA, na altura, com defesas reforçadas e com uma imagem mais agressiva associada, como forma de intimidação a possíveis futuros usurpadores.

Dentro da Cultura Hip Hop, na vertente genéricamente intitulada de Bboying, existem cerca de 10 danças facilmente relacionáveis e que a Catarina explica claramente usando analogias sociológicas generalizadas. A Cultura no seu todo assenta em 5 pilares essenciais: Bboying / Deejaying / Emceeing/ Graffiti & Knowledge (o elemento que lhe é, obviamente, mais caro e o qual tem aprendido através das palavras do rapper KRS-ONE, aka “Da Teacha”), mas com o tempo surgem novos pilares, acompanhando a própria evolução desta comunidade, como o branding/empreendedorismo, a linguagem ou a moda. O Motto comum que unifica todos esses elementos constituintes é o slogan que professa os seus princípios basilares condutores: “Peace, Love, Unity & Having Fun”.

Na verdade, o seu primeiro contato com a Cultura Hip Hop aconteceu quando tinha cerca de 12 anos – ao ver o filme Breakin’ (84) e, na altura, instintivamente as brincadeiras entre amigos com referências ao mesmo começaram a surgir –juntavam uns cartões e iam para a rua dançar e fazer como viram no filme. Mas naquela altura houve uma campanha de difamação nos USA que rapidamente chegou à Europa de que esta dança causava lesões permanentes e não demorou até que esta fosse interdita como expressão artística apelidando-a da “dança que mata”.

Quando ingressa nas aulas de Hip Hop, agora com 40 anos, conhece os professores Vasco Alves (Jukebox Crew) e o André “Speedy” Garcia (JukeBox Crew & InMotion Crew), nos quais encontra os parceiros e “Senseis” ideais para esta nova incursão em território cognitivo “virgem”, e descobre também que afinal lhe “tinham roubado o Hip Hop demasiado cedo”.

Há cerca de um ano, Miguel Silva – director de marketing desportivo e cultural da Redbull, marca que tem tido um importante papel na promoção da Street Dance e da cultura Hip Hop a nível mundial – com ideia de participar na Lisbon Week, contacta a Catarina para montar um espectáculo com um grupo de bailarinos de ambientes carenciados, sendo que os apurados ganhariam uma bolsa de estudos na Fullout Dance Academy.

Foi com esta oportunidade que uma ideia que já andava a crescer com ela começou a ter traços mais delineados. Quando a Catarina começou a entender esta cultura apelidada “de rua”, o seu espírito analítico e a sua obsessão por pessoas, levou a que o cruzamento de duas culturas – as ditas  “alta cultura” e “cultura de rua” – surgisse como um forte desejo e impulso para o seu trabalho, sendo ela própria um exemplo deste mesmo cruzamento. Com a sua formação baseada na “inteligenzia” e nas “clássicas” e agora a viver o outro “lado da moeda”, viu claramente as vantagens que teria se estas duas elites de topo se encontrassem no que seria o melhor dos dois mundos. Surge então o The Radiotron.

O espaço que tinha sido cedido pelo DNA Lisboa como atelier à Catarina encontrava agora sentido no seu destino, e foi nesse local que se fizeram as audições para o espetáculo da Lisbon Week, tendo como juízes a Catarina e o seu mentor e professor de Hip Hop, Vasco Alves, músico, bailarino e também director artístico da Jukebox Crew.

fotos do espetáculo "Red Bull apresenta Back at The Radiotron" no Ateneu Comercial de Lisboa -  Copyright Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Depois do espetáculo, o The Radiotron permaneceu neste espaço como a vertente pedagógica e de interação com a comunidade circundante do DNA, e os agora bolseiros da Fullout Dance Academy permaneceram como alunos do mesmo. O que se passa nesta que pode ser designada como “universidade invisível”, para além de alguns treinos da turma ou crew, são conversas e debates sobre os cinco pilares em que assenta a cultura, mas não só. Nunca é demais refutar a verdadeira essência deste projeto: cruzar a matéria prima humana de uma cultura que se designa alta com a que se nomeia de rua; cruzar formas de pensar e de estar; cruzar o real com o ficcional à imagem do espetáculo que desenvolveram no Ateneu Comercial de Lisboa com a Redbull e inserido na programação da Lisbon Week (que a Catarina descreve no áudio). A proximidade física com o Teatro Praga também estreita este cruzamento entre culturas, havendo já exemplos reais de interação entre os mesmos (André “Speedy” Garcia, um dos três “Founding Mastermentors”, e Travis Walker, um dos sete “Radiorookies”, participaram recentemente no espectáculo do Teatro Praga “Tropa-Fandanga”, estreado no Teatro Nacional D. Maria II.)

O próprio nome “The Radiotron” origina assim e foi transposto da realidade para o ficcional e vice-versa com os mesmos propósitos (ou quase).  Em Los Angeles (anos 80) Carmelo Alvarez, vindo do jazz, apaixona-se pelo Hip Hop e decide criar uma escola no sentido de tirar crianças da rua e aprenderem a cultura do Hip Hop, dando assim um sentido comum a todos através da pedagogia. Cederam-lhe uma casa onde no primeiro andar ocorriam as aulas, e no rés-do-chão à noite as festas com cyphers e battles. Esta chamava-se Radio Club. (Até aqui esta história já soa a familiar, não é?) Mais tarde surge uma companhia cinematográfica que decide pegar no projeto e transpô-lo para o grande ecrã, mas como não queriam usar o mesmo nome para “a casa”, e na altura tinha saído o tão afamado filme “Tron”, ficou “The Radiotron” e assim acrescentaram um sentido mais futurista ao próprio filme.  E foi exatamente este filme – Breakin’ – que a Catarina viu aos 12 anos.

As coincidências chegam a ser cíclicas em todo o caminho percorrido até chegar ao processo de criação deste organismo vivo – The Radiotron – que dá oportunidade a quem nele integra de superar carências, sendo de que natureza forem. Este organismo tem vindo a desenvolver-se naturalmente, tendo sido estruturado muito nas bases de conhecimento da Catarina, quando, por exemplo e utilizando ferramentas filosóficas, cria uma linguagem própria de designação para um organigrama interno desta “universidade aberta”.

Os TKO (nome “roubado” à crew dos “bons” no filme Breakin’, composto pelas iniciais dos nomes das personagens Turbo, Kelly & Ozone ) foram a primeira turma deste projecto que reside no DNA desde as primeiras audições. Em 2014, promoveram o Take the Crown – Electro + Krump Edition, um evento aberto ao público de dois dias com aulas de dança Electro e Krump, uma sala dedicada à Street Art – o “Graff Scriptorium” – e várias competições entre bailarinos. E mais recentemente, participaram, a convite de Francisco Rebelo e Carlos Martins, no Festival Lisboa Mistura, em "20 anos de Hip Hop Tuga / 40 anos do 25 de Abril", e organizam treinos abertos regulares de Locking, o primeiro dos estilos de dança da Cultura Hip Hop, orientados pelo Locker português Funky Ricky.


Catarina Campino destaca que: 

"O The Radiotron é um organismo social vivo que se redefine sempre que se move, sempre que se materializa, sempre que cresce. E que tal como a sua “Founding Mastermentor”, força-se a contradizer-se para evitar ter de se conformar ao seu próprio gosto. E tem porta aberta para todos o que se lhe quiserem juntar nesta demanda de mapear e edificar o sítio e os lugares “where Knowledge meets Hype”. São disso exemplo nomes singulares e colectivos que se já tornaram indissociáveis da existência deste território de pura potencialidade. Nomes como os de João Guimarães, Mafalda Carvalho, André Teodósio, Pedro Penim, Joana Barrios, Teatro Praga, Miguel Silva, Helena Menino, Red Bull, Sara Eugénio, Wall Stay, Douglas Bmyst, Knight Fam, Mary B. Feliciano, Fausto Bellucci, Jukebox Crew, InMotion Crew, Marcos André, Ivo de Carvalho, João Calheiros Completo, Jink, Djs X-Acto, Rodric, Ki, Cambodja & Apu, Scratchers Anónimos, Ricardo Rosa e Ana Morais, entre outros. Mas são igualmente exemplos válidos os nomes “do que há de vir a ser”, esses que fazem parte da nossa “RadioBucket List” de pura possibilidade: Grognation, Bruce Nauman, Stereossauro, Valete, KRS-ONE, Mr. Wiggles, Jérôme Bel, Martin Luther King, Platão, Giorgio Agamben, Michael Jackson, Tight Eyez, Sugar Rae, The Fugges, Stromae, Slavoj Zizek, Mahatma Gandhi. Esta é a “Radionation”.

Este projeto é “um carimbo” de lugares, de atitudes e de contextos. É um ambiente de sentido, e quando acho que algo está dentro de certos parâmetros carimbo-o com “This is The Radiotron".”


Acho que no geral todas as mudanças e alterações no percurso da Catarina foram como peças de um puzzle que começa agora a ganhar cada vez mais em sentido. E tendo a cultura street se cruzado a um outro universo: o meu com esta conversa atrevo-me a dizer,  This is The Radiotron!

Um especial obrigada a Mafalda Carvalho - Diretora de Comunicação do DNA Lisboa - por ter proporcionado esta conversa!


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