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"À conversa com…" Mosaik para o Jornal Pedal

Jornal Pedal edição nr 21 | texto e fotos por Ana Morais | design estúdio HHH 

O graffitti e a arte urbana têm evoluído a passadas largas e a olhos vistos em Portugal, e já são vários os nomes, do panorama português, reconhecidos não só no meio, como também na sociedade em geral. O graffitti inicia-se como um estudo exaustivo da letra e caligrafia (lettering) expresso nas ruas com uso de tinta spray, e a arte urbana (streetart), um conceito bem mais recente, veio acrescentar-lhe outros veículos de expressão, como o uso de pinceis, stencil, e outras artes plásticas, e retirar uma certa conotação negativa que tem acompanhado o graffitti desde os primórdios.
“Reclaim the Walls. Reclaim the Streets!” É actualmente uma frase reivindicativa muito usada no graffitti que relembra o caminho que este desbravou para que hoje em dia várias expressões artísticas estejam expostas em autênticas galerias de céu aberto.
            Fui conversar com o Mosaik aka Nuno Barbosa, como ele próprio se apresenta. Faz parte da segunda geração de writters em Portugal e a sua primeira aproximação ao graffitti foi há 20 anos atrás, quando conheceu um fotógrafo canadiano, por terem em comum a cultura skater, que lhe apresentou um portefólio com registos fotográficos de graffitti pela Europa. Foi então que surgiu a curiosidade e a vontade em fazer o mesmo em Portugal.
O facto de na altura o graffitti estar muito ligado à cultura do Hip-Hop e dos skaters, ajudou na medida que ele já tinha conhecimentos no meio, permitindo-lhe mais facilmente ter a hipótese de culminar o seu gosto pessoal pelo desenho nesta expressão artística.
Youth, da primeira geração de writters em Portugal e pessoa que nomeia como seu “mestre”, deu-lhe a conhecer tudo o que sabia, apresenta-lhe a cultura e a história “porque no graffitti passas sempre o legado a outra pessoa”, e entra como júnior, pela “mão” do Obey (português) no primeiro crew: os PRM – Paint Racking Mafia. A filosofia deste grupo de pessoas com uma mesma identidade incluía saber dar a volta ao sistema para ter o material necessário para pintar, pré requisito que preenchiam de forma astuta: em cada trabalho faziam “contas alargadas” ao material necessário de forma a sobrarem sempre latas. Era ajustar o ilegal com o que é considerado legal.
PRM separa-se e inicia os Five Star, onde, nessa altura, é o Mosaik a passar o legado a alguns dos outros membros do crew. Seguindo uma normal evolução também os Five Star se separam, e, apesar de sempre ter pintado com outras crews e pessoas, neste momento pertence aos Thunders - crew constituído por 5 membros e com uma rotina de pintura semanal numa mistura de estilos old school e new school. No entanto o seu cunho pessoal e estilo próprio foram, e continuam a ser, o ponto fulcral, pois são essas as características que diferenciam e identificam cada artista nas suas peças.
            Mosaik, que faz também parte do leque de apoiados da marca DC, destaca a experiência de uma intervenção direta aquando o lançamento do carro Nissan Qashqai “Urban Proof” pela projeção internacional que daí originou, e o mais recente projeto “Natureza Viva” - uma intervenção colectiva em três painéis em Setúbal, no CC Alegro e nos pilares da Ponte 25 de Abril, ao abrigo da GAU - “pintar os pilares da ponte deu-me um particular gozo”; e desvenda um pouco dos projectos que estão na calha, mas por ainda se encontrarem em fase de aprovação prefere não divulgar.
Ouvir o Mosaik falar sobre graffitti é ouvir falar a voz da experiência. Á medida que avançamos na conversa, são várias as histórias que me conta, aventuras resumidas a exemplos entusiásticos pela Europa (Portugal, Holanda, França, Itália, Espanha, Bélgica, Suécia) que dá gosto ouvir.
O graffitti não é a única vertente ativa na vida do Mosaik. É educador de infância há 17 anos, e entusiasta dos desportos de outdoor, dentro da “board culture” (skate, snowboard, wakeboard), caça submarina e das bicicletas. Neste aspeto entende-se o que quer dizer quando afirma que “a diferença entre adultos e as crianças é o valor dos brinquedos e o que despendemos neles, tanto tempo como monetariamente”. Pode-se dizer que bicicleta é um “dos brinquedos” a que se refere e que o tem acompanhado ao longo dos tempos. Apesar de não poder andar diariamente, nem ser o seu principal meio de transporte devido às variadas áreas que tem de conciliar, não dispensa os passeios semanais, ora com a bicicleta de montanha, no Jamor ou em Sintra, ora com a bicicleta de estrada, pela cidade e à beira rio. Mas a coleção é variada e começa há anos atrás com uma que usa somente para usufruir da gravidade do planeta, pela adrenalina da descida – Free Ride; passa por uma Dirt Bike na prática de saltos em terra; mantém a de montanha e a de estrada, e adiciona a de Bike Polo. Há cerca de 5 anos que pratica este desporto regularmente, aliciado pela vertente da competição, e, como em tudo em que se envolve, explica facilmente tudo sobre o desporto e a cultura abrangida pelo mesmo (o Jornal Pedal publicou uma reportagem sobre este desporto na edição nº1). Já o levou a vários países europeus em torneios, e apesar de em Portugal o núcleo de praticantes não ser muito vasto (cerca de 40 pessoas) é um desporto que resiste e subsiste sem apoios ou patrocínios, apesar destas bicicletas terem muitas especificidades e manutenção. Ainda que tenha sido considerado um Desporto Olímpico na década de 70, hoje em dia é a comunidade de Bike Polo que gere as regras do desporto, sendo somente federado na França. Nem todos os países têm este desporto, pois necessita de condições específicas á prática do mesmo, e na sua maioria são as próprias estruturas sociais que criam as infra-estruturas necessárias. Em Lisboa é em Benfica, cerca da Junta de Freguesia ou na 5 de Outubro num parque de estacionamento vazio de um hotel, às segundas à noite que os treinos acontecem, e cada primeiro dia do mês existe um treino para iniciados e curiosos. Fica o convite para irem experimentar.

Não posso terminar sem concordar veemente com o Mosaik quando afirma que a conjuntura económica mundial veio ajudar ao papel preponderante da bicicleta na sociedade: é económico, faz bem á saúde e de fácil estacionamento; e é mesmo isso que temos testemunhado numa tendência crescente, não só em Lisboa, como a nível mundial.

podem ver toda a foto-reportagem aqui


1 comentário:

  1. E como sempre mais um excelente artigo escrito por um punho bem afinadinho! Parabéns por mais um óptimo trabalho, deves estar toda orgulhosa ;)

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