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Nem mais depressa, nem mais devagar.


foto por João Almeida

O tempo já me deu e tirou muita coisa. Não me sinto única, nem especial neste ato tão dedicado do mestre da repetida contagem compassada. Ele mestria uma orquestra de dias e acumula-os em fases: dá-nos um passado, presente e futuro. Sempre que páro para o ver passar, ele relembra-me: seja qual for o passo que leve, a contagem para ele não se altera, pois o tempo leva o tempo que o tempo tem. Nem mais depressa, nem mais devagar. 


O tempo já me tirou coisas. Desgastaram-se, perderam o interesse, deixaram de servir o seu propósito, porque o tempo não pára e nem às coisas é indiferente. A correria é intensa e a pressa parece tornar-se inerente a tudo o que envolve uma vida contada a “tantos tics” e a “tantos tacs”. Conta o crescimento das pernas, um todo efémero que nos acompanha, e conta em que compasso caminhamos. Mas o tempo que lá demoramos a chegar não o descompassa, porque ele passa sempre de igual modo para todos. Nem mais depressa, nem mais devagar.

O tempo já me tirou pessoas. Pessoas que passaram com tempo contado, pessoas com termo de estadia que nem o tempo o faria prever, pessoas sem tempo e com tempos diferentes do meu.  Eu acredito que as pessoas são como relógios. Cada um com o seu compasso, mas todos incluídos no mesmo tempo. O tempo passa, mas não se descompassa, somos nós que o assumimos em compassos diferentes, atrasando ou adiantando o nosso relógio conforme vamos assumindo o que o tempo nos dá enquanto o percorremos. Quando a muito nos propomos ou quando as responsabilidades nos assoberbam suspiramos: “não tenho tempo para nada”, quando fazemos o que não gostamos reclamamos que “o tempo nunca mais passa”, quando fazemos o que mais gostamos parece “que o tempo voa”. E mesmo quando paramos à janela com a sensação de que o nosso relógio parou, o tempo continua no seu jogging lá fora. Nem mais depressa, nem mais devagar.

Mas o tempo também já me deu. Deu-me essencialmente oportunidades, em ser melhor, em errar, em aprender a errar, em viver, experienciar e amar. Deu-me oportunidade de ter coisas, de conhecer pessoas, de dar e de receber. E é com esta ideia que quero ficar. Guardar o que de bom o tempo me deu, o que pude abraçar, o tempo que tive para amar, esperar que esse tempo tenha sido bondoso também com quem comigo se cruzou, e continuar a aprender enquanto me for permitido, porque o tempo continua a passar. Nem mais depressa, nem mais devagar. E não é eterno.


21 comentários:

  1. Ana, como sempre és fantástica com as palavras, fico deslumbrado! É verdade tudo o que escreves neste texto, o tempo tanto tira como dá, e nós só temos de tirar partido do melhor e aprender com o pior. Continua a escrever maravilhosamente. Never give up!
    Beijos.
    Pedro

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  2. o tempo ... ai o tempo ... as horas, as semanas, os meses e os anos ... ai os anos ... esses que passaram enfim ... Nada a fazer se não realmente aprender com as experiências, se voltasse atrás no tempo .... muitas coisa que eu mudava com toda a certeza ... tu deixas-me a divagar no tempo ... beijinho Ana <3

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    1. que te deixe a divagar no bom que o tempo te trouxe amora <3 beijo grande

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  3. O tempo é tão relativo!....
    Existe o tempo medido pelo relógio, e o tempo medido por cada um de nós, esse que varia com as alegrias, as tristezas, os sentimentos...
    Parabéns pelo teu texto.
    Gostei muito!

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    1. Obrigada Cila!
      existe o tempo igual para todos e depois existem as percepções do tempo que nos são pessoais e aí sim relativas.
      o tempo passa de igual modo para todos, mas a todos nos afeta de forma diferente!
      beijinhos!

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  4. O tempo é aquele assunto que é o meu ponto fraco e que me toca de maneira especial, principalmente por perceber que não o consigo viver ou aproveitar como desejo. É aquele assunto capaz de tempos e tempos de conversas infinitas, de discussões acesas e conclusões definitivas, tão incisivas como as decisões importantes. É aquilo que nos faz duvidar e tremer, quando foge ao nosso controlo, mas também suspirar e sorrir com toda a alma, quando damos por nós a viver o tempo a tempo inteiro.

    É difícil viver assim, entregue ao tempo. É difícil de lutar contra o tempo. Mas é bom saber que não sou a única a sentir assim. Mas é mais fácil lutar de mão dada com alguém amigo, que sente o tempo como eu.

    Adoro-te, gosto muito do que escreves e continua sempre. :)

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    1. ...é difícil porque somos conscientes do como é fugaz! E esta consciência tem as suas coisas boas e más. A ânsia de o vivermos e de lhe tirarmos o maior proveito, e o medo de não ter tempo suficiente para ter oportunidade de o viver.
      Querida Raquel, "acrescentas-me" tanto! Obrigada. Adoro-te!

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  5. "Eu acredito que as pessoas são como relógios. Cada um com o seu compasso, mas todos incluídos no mesmo tempo. O tempo passa, mas não se descompassa, somos nós que o assumimos em compassos diferentes, atrasando ou adiantando o nosso relógio conforme vamos assumindo o que o tempo nos dá enquanto o percorremos."

    Acho que nada acontece por acaso. Acho que não foi por acaso que este texto "veio" ter comigo e eu com ele. Se há temática que tem dado reviravolta nos últimos tempos na minha vida, tem sido...sim, precisamente: o tempo.

    O tempo para os inquietos torna-se tudo ou nada. Cada dia, cada hora, cada minuto que passa, têm duas hipóteses: aproximarem-se mais da nossa data de validade, ou serem sugados e aproveitados como se nunca houvesse outro momento que os seguisse...

    Como tu dizes "o tempo não é eterno". Não há depois. Há agora. 1001 distrações. 0 foco. O amor é dos que vivem neste momento.

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    1. Se me dizem muitas vezes que tenho o dom da palavra, há comentários destes que me deixam sem saber como as usar.
      Fico contente que o que escrevo chegue a pessoas como tu, que leem e sentem cada palavra, que se reveem e que não se acanham em dizer o que lhes vai na alma. Partilhar é, sem dúvida alguma, das melhores oportunidades que o tempo nos oferece.
      Obrigada por teres partilhado. Mesmo! Beijinhos

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  6. O tempo é o um elemento importante para uma saudosista como eu. Dentro do tempo guardo memórias de tudo o que já vivi. Gosto de usá-lo com alguma frequência e recorrer à sua sabedoria.
    Eu vejo-o como se fosse um coador (lá vem ela com os disparates) onde escorremos a água da nossa vida e ficam as memórias. Ficam aquelas que queremos e aquelas que precisamos. As memórias que queremos são as que nos deixam um sorriso automático quando nos recordamos de algo bom, agradável e feliz. As memórias que precisamos são por vezes aquelas que nos trazem, tristeza, mágoa e por vezes uma saudade amarga. Não gostamos delas mas são estas que nos ensinam a sermos mais forte, aquelas que "se talvez tivesse feito de outra forma não acabava assim" ou então "Não vai haver próxima vez, já chega!" e podia dizer outras tantas... Mas são estas que no enrijecem, que nos ensina a levantar mais depressa ou que aprendemos a "cair com estilo" (ai como eu de patins aprendi isso) para não partirmos nada, isto é, o coração.

    E mais uma vez, as tuas palavras têm o dom de me inspirar para eu encontrar as "minhas" palavras certas para dizer o quanto eu admiro a tua escrita e como cativas as pessoas com esta capacidade.

    Um beijo enorme de saudades!

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    1. ai amiga se vamos falar em memórias… lembrei-me que tinha escrito este texto há algum tempo atrás http://mulher7oficios.blogspot.pt/2013/01/pequenas-coisinhas-em-caixinhas.html … não sei se te lembras dele. Mas agora a relê-lo apercebo-me do quanto este assunto precisa de um novo texto. Amadurecido.

      Mas seguindo a tua linha de pensamento, sim, as memórias são um dos efeitos secundários do tempo. Mas melhor que reviver o tempo que passou, é saber viver o tempo que temos agora e o que ainda está para vir. Saber apreciar cada momento com o "sabor" a novo/novidade que o tempo trás com ele. É verdade que as memórias são parte importante e integrante da vida; são os marcos, a experiência, a aprendizagem, mas é importante que não nos limitem, que não nos prendam, para que cada momento novo que o tempo te dê seja vivenciado da melhor maneira que possas e com o melhor sentimento que te seja permitido!

      saudades de te abraçar amiga <3 falta pouco!

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    2. Neste momento eu vou criando as memórias do presente ao meu gosto. Exploro a cidade, a cultura e as pessoas. Saboreio cada dia que fica longe daquele em que tomei a decisão de mudar de vida e a esse momento do passado dedico boas memórias do resultado do esforço que fiz e da coragem que trouxe na bagagem. Já estou a começar a divagar por isso cá vai: tempo, és o meu futuro, é aquele que me trará novas experiências, que me vai a ensinar a ser adulta e a apreciar com mais tacto cada instante que passa pelos meus dedos. Sempre que posso abraço-o e agradeço por tudo o que já foi e por tudo o que virá. Com toda a alegria e força de espírito!

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    3. que nunca te faltem! (a alegria e a força de espírito)
      beijo gigante***

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  7. Só agora o tempo que me prende a alma, permitiu ler e reler e voltar o teu texto, não porque não tivesse prioridade, mas sim porque merece mais que a leitura simples e apressada deste novo tempo que nos espartilha a liberdade de apreciar beleza encerrada na conjugação das letras nascidas no teu coração.

    E como sempre bem fazes... deixas o teu coração falar por ti, sabes que ele te conhece como ninguém... é lindo o teu coração.

    O tempo leva-me no entanto numa viagem ao próximo passado, ao tempo do sorriso fácil e puro, da procura da arte de viver, dos sons, das cores e dos momentos que ansiávamos para que o sentido de viver fosse pleno de felicidade, de preenchimento e brilho nos olhos... os outros muitas vezes... ou quase sempre, não entendiam... mas ficavam a pensar... e isso era já por sim motivo de felicidade!

    O tempo como dizes não é eterno, mas regista na eternidade da memória a luta diária, os momentos vividos intensamente, os bons e os menos bons, os que nos perseguem e os que nos acompanham para sempre, alguns duraram dois a três segundos, um olhar, um sorriso, uma lágrima... uma gargalhada sonora e revigorante!

    Não acabo sem agradecer ao teu tempo... que um dia se encontrou com o meu... agradecer ao tempo que te inspira...

    Continua assim, o tempo é teu... partilha-o connosco que vamos agradecer sempre!
    Grande Beijinho! :)

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    1. Pedro, muito obrigada… por leres, releres, por te teres deixado inspirar e por este comentário fantástico.
      Fico sem saber como retribuir tantas palavras bonitas a não ser dizer: obrigado por estares desse lado.
      Obrigada pela força também. Beijinhos

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  8. O tempo para ler o texto passou. O tempo que ele ficou a ecoar em mim permaneceu e permanecerá durante dias. Gosto da ideia de guardar o bom tempo, aquele que não nos importamos que passe por nós uma e outra vez. Aquele que nos faz ter rugas de expressão de dias bons como aquele em que lemos este blogue e sorrimos.
    Obrigada pelo teu tempo oferecido em cada palavra.

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    1. awww, obrigada eu pelo tempo em me retribuir <3
      beijinhos

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  9. A vida é tão complexa, mas há pessoas que têm o dom de colocar em palavras aquilo que mexe cá dentro, aquilo que nos inquieta, aquilo que nos faz olhar para um pôr-do-sol e pensar, tu és uma dessas pessoas..que texto tão bonito. E o tempo em que fiquei a lê-lo foi muito bem passado :) *

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    1. Minha querida Ju <3
      Obrigada mais uma vez pelas tuas palavras, ainda bem que consigo chegar a pessoas como tu, que tiram o tempo necessário para ler as minhas singelas tontarias :)
      beijinho grande!*****

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