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"Ao Quilómetro tal..." Londres, Março 2013.



fotografias Ana Morais e Rui Morais (nas que eu apareço lol)
No aeroporto de Lisboa, olhei para o placar e para o relógio, cheguei com tempo. Caricato, estando ainda em Portugal, todos me falavam em inglês, “Deve ser do cabelo”, pensei. Tabaco, jantar, tomar café, ver a Fanny com o “bofe” novo e a Cátia (Casa dos Segredos), e esperar. Na sala de espera, as pessoas comportam-se como as estranhas que são. Não se abordam, não se entreolham, não sorriem. Incrivelmente, quando entramos no avião tudo muda.
Sentei-me no 11F à janela, com um lugar vago entre mim e outro português que, igualmente, viaja sozinho. Ele lê Gonçalo Cadilhe, “Boa escolha!” – comento quando passo por ele, ele tenta continuar a conversa, mas eu estava mais interessada na minha janela. Sorri-lhe. Sentou-se no nosso meio a Sofia. Portuguesa a viver em Londres há 12 anos, 2.º casamento, dois filhos e três enteados, e uma história de vida resumida ao que duas horas de voo lhe deram tempo para contar. “Há quando tempo estás em Londres, Ana?” “Bom…esta é a primeira vez que lá vou!” – Mas que raio? Foi então que ela me explicou – “Não pareces uma típica portuguesa por isso deduzi que já não estarias cá há algum tempo.” Fiquei sem saber o que ela queria dizer com isso, mas também não prolonguei o tema.
Como em todas as viagens, sozinha ou não, cumpri a minha tradição: mandei vir a minha vodka e pringles. Perante o olhar da minha vizinha, perguntei se ela me acompanhava. Mandou vir champanhe para ela. Nada mal!
Sofia foi para Londres à luta. Começou por fazer limpezas o tempo suficiente para se licenciar em enfermagem e agora, passados 12 anos, já não se vê noutro sítio que não naquele centro de saúde onde ela “finge” lembrar-se dos nomes e vidas de todas as caras que por lá passam, fazendo-se valer de cábulas que astutamente esconde na ficha dos utentes. Bebemos e brindamos aos enchidos, bacalhau e polvo que ela levava na mala do porão. Até anunciarem que alguém precisava de assistência médica e a Sofia ser a heroína deste voo, salvando alguém de entrar em coma! Tratou da pessoa até o avião aterrar e entrarem os paramédicos – ah valente mulher! Começamos por nos tratar por você e senhora, e terminamos, já em Gatwick – Londres, com um “Tu faz boa viagem e diverte-te”, e outro “E tu conduz com cuidado até Birmingham”, acompanhados de um abraço.
Procurei a contratempo o comboio para Victoria com outro português que entretanto se “colou” a mim. Fintei-o nas bilheteiras e segui o meu caminho. Já na plataforma, faltavam dez minutos para o comboio. Um casal de espanhóis senta-se a meu lado, com uma menina dos seus dois anos que demonstrava a plenos pulmões a sua indignação de ainda não estar a dormir. Olhou para mim (continuo a achar que é por causa do cabelo) e eu fiz a minha típica careta “boca de peixe”, sucesso! Arranquei-lhe umas quantas gargalhadas e na hora do “adios” estica os bracinhos na minha direção. Queria vir comigo! Que saudades me deu da minha sobrinha.
Corri para o comboio, trinta minutos de viagem até Victoria e passei à aventura do metro. Carreguei o Oyster e sem saber consegui apanhar mesmo o último metro para encontrar à saída de Tufnell Park os meus queridos anfitriões debaixo do seu guarda-chuva, agarradinhos e com olhitos de sono.
No segundo dia, acordei e arrastei-me até à sala aconchegante, com a luz do dia a entrar entre os cortinados rendados de uma janela até ao teto, e a mesa posta. Há mais de três meses que não me dava ao luxo do precioso momento de um pequeno-almoço substancial, que tanto aprecio. Uma conversa amena de quem ainda precisa de cama, e delinear calmamente o percurso do dia. Não fui para Londres com as ânsias de qualquer turista. O meu objetivo foi conhecer a vida da cidade, as pessoas, as ruas e o movimento, e a lógica da cidade em si. Não me considero uma turista, mas sim uma viajante. Por isso decorreu tudo muito naturalmente. Mesmo quando eu, já em East London, entrei numa loja de Lomografia para tirar uma foto com o pessoal que lá trabalha, por se terem feito de emplastros à minha foto da montra! Tão normal em mim!
Percorremos a City em direcção à TowerBridge. Nesta ponte houve um momento importante para mim, parei e pensei com o coração: “Vou atravessá-la a pensar em ti!”. Quando se gosta, não interessa onde estamos, e em que situação nos encontramos, há momentos em que, por mais que não queiramos, o coração fala mais alto. Atravessei-a contigo na mesma.
Já na outra margem, pelas as margens do Tamisa fomos até Westminster. Entretanto, à saída da London Bridge, aconselho a parar em Borough market, principalmente se for quinta, sexta ou sábado, onde vão encontrar um mercado com todo o tipo de comida de várias culturas. Eu optei por recordar os tempos que vivi em Berlim: uma bratwurst e glühwein para acalentar o espírito. E depois fui até França/Suiça e experimentei a raclette. Eu sou grande apreciadora de queijo, pelo que experimentar este petisco foi bastante interessante (fondue de queijo típico com batata cozida e picles). Essa é a magia deste lugar, é tudo feito à nossa frente (“nothing to hide”), e a diversidade é tanta que é de deixar qualquer curioso como eu feliz da vida.

fotografias Ana Morais e Rui Morais (nas que eu apareço lol)

Passamos o London Eye e, ao chegarmos a Westminster, atravessamos a ponte em direção ao Big Ben. Éramos três, passámos a cinco! Há muitos anos que não via a Marta, foi um daqueles momentos em que se sente que um abraço bem apertado acaba por compensar e reduzir o tempo em que se esteve distante. Fomos pondo a conversa em dia ao longo do caminho, interrompidos ora por um esquilo ora por um Earl Grey com leite, já em St. James Park. Bem tentei fotografar a Marta, mas vamos lá perceber como uma mulher tão bonita tem complexos perante uma câmara?
Do Buckingham Palace demos a volta até Picadilly e subimos até Oxford Street, para finalmente nos sentarmos para comer o típico Fish & Chips acompanhado de uma Pint, que a senhora do balcão não me queria servir por desconfiar da minha idade. Quase lhe dei um beijo na testa, por achar que eu nem 21 anos tinha.
Seguimos para a zona do Soho para ir ao M&M’s World! Aconselho toda a gente a lá ir, é a Disneyworld dos M&M’s. Comprei de todas as qualidades e cores! E por causa do saco apelativo que de lá trouxe, digamos que o meu caminho entre a loja (gigante!) até Picadilly Circus foi muito interessante, pela quantidade de pequenos e graúdos que me abordavam para saber onde era a loja. Picadilly Circus foi uma das zonas de que mais gostei, muito urbano, com os placards luminosos ao estilo nova iorquino, e muita música e dança na rua.
O Gonçalo já estava despachado do trabalho, então atravessamos Chinatown e o Soho para passarmos a ser seis. À procura de um pub, ainda passamos em Covent Garden.
Desde o primeiro momento, senti-me em casa. Em nenhum momento me senti estrangeira, turista sem mínima ideia do que andava a fazer, pois tudo me parecia lógico e familiar. Foi um sentimento estranho, mas convenceu-me. Ajudou o facto de terminarmos o dia num pub no Soho: olhar em volta e ver os meus amigos reunidos, todos à conversa em roda de uma mesa comum, depois de um dia de passeio.
Recolheram-se os casalinhos, e eu e o Gonçalo ainda fomos a um bar de rock beber mais uma pint. Apanhei o último metro para casa.
O dia seguinte estava reservado a Camden Town, a mesma moleza pela manhã, mas desta vez apanhamos o autocarro, até porque estávamos a duas estações de distância. Senti-me um pouco entre as ruas de Berlim e os mercados de Budapeste, e é o local ideal para comprar recordações e mais o que nos apetecer, para todos os gostos e para todas as carteiras (ou quase!). Passa-se bem um dia por ali, mas, com o frio a apertar, acabei o dia em casa a fazer o jantar para os meus anfitriões queridos e a adormecer no sofá a ver de maratona os últimos episódios de “How I Meet your Mother”.
No último dia tive um bom-dia com neve. O dia foi muito calmo, dedicado a enviar postais para quem me é querido, e a comprar uns últimos goodies para levar comigo.
Já bem familiarizada com os transportes e contratempos à parte, foi sem problema que cheguei ao aeroporto.
Fiquei com uma boa impressão dos ingleses em geral, mesmo com quem me cruzava no metro sempre senti simpatia. Fez-me sincera impressão fechar tudo tão cedo e as miúdas andarem de sandálias, sem meias e saias, com uma temperatura de neve. Jezzzz! Nestes dias tive direito a tudo: chuva, o típico nublado, algumas abertas de sol e neve, talvez por isso o tempo não ter sido algo que me tenha incomodado muito.
A viagem em si foi muito importante para mim. Um destino clássico europeu que há muitos anos desejava fazer, mas sempre adiei. Depois passou a ser um plano a dois, e quando o “dois” deixou de existir, levantei a cabeça e marquei a viagem. Sempre gostei de viajar sozinha, trago sempre histórias comigo. Esta podia ter sido uma história de amor, em vez disso foi uma bela história de amizade.

fotografia por Rui Morais 


Sem dúvida pretendo voltar, falta saber se vai ser para ficar.

fotografias por Rui Morais | Edição e Montagem por mim :)




4 comentários:

  1. Opaaah! Esse gif animado está mesmo cómico e mesmo a tua cara... e cabelo já agora!

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    1. ahahahahahah... na altura tiramos as fotos sem essa intenção mas depois ao ver a sequência foi inevitável não fazer o GIF loolololol
      eu sei, eu sei... é a minha palhaçada lololol

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  2. "Não pareces uma típica portuguesa"... Check, lol
    "não me considero uma turista, mas sim uma viajante": gostei, bonita maneira de descrever a parte mais interessante das viagens, as culturas, as pessoas, os modos de vida...
    Nice pics :p

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    1. Olá Artur,
      muito obrigada :) Graças ao Rui fiquei com fotos muito giras de Londres, comigo incluída eheheh
      beijinhos
      ^_^

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