HOME                    À CONVERSA COM                  O LIVRO                  AO QUILÓMETRO TAL                 ARQUIVO                 

“Como está o tempo por aí?"




Um dia contei-vos que me falaram de alguém. Hoje escrevo-vos eu sobre vários de quem vos quero “falar”.

Com 27 anos já perdi muita gente em meu redor. Restam-me um par de mãos enrugadas pelo tempo, mãe do meu pai. Perdi quem nem tive tempo de conhecer em condições e de quem lamentavelmente já poucas memórias restam. Ficou o cheiro dos almoços de domingo e a imagem de um rosto à janela de quem espera pacientemente pela alegria na sua vida. Já perdi amigos numa curva mais apertada, nas mãos de um mau condutor. Ficou a recordação do seu rosto sincero a pedir-me para não deixar que a tristeza me cegasse e do qual nem me foi permitido despedir. Já perdi quem não era sangue do meu sangue, mas que como tal amava. Que me salvou a vida mesmo pensando que era eu que estava a salvar a dela. E perdi-te a ti. Memória tão recente de perda.
Nunca falei com ninguém como foi perder-te. Tornei-me cada vez mais afastada de quem ainda a tua partida chora, para não ter de falar de ti e por isso nunca mais voltei ao sítio onde te vi pela última vez repousar.
Hoje, pela primeira vez em tanto tempo, voltei a esse sítio. Não sabia bem o caminho e a imagem do local certo estava demasiado turva. Levei-te uma flor. De nada serve, mas levei na mesma. Não disse a ninguém que vinha, mas avisei-te a ti ontem em pensamento. Revi todo o percurso mentalmente para tentar “visualizar” se era realmente hoje que queria fazer aquilo para que ainda não tinha tido coragem. Foste como um segundo pai para mim. Não consegui chorar, os olhos já secaram e não foi por tua causa. Conversei um pouco contigo. “Como está o tempo por aí? Por aqui, a primavera parece demasiado envergonhada para aparecer!” Continuo a não lavar a loiça como tu gostavas que eu fizesse. Aparento estar cada vez mais desligada de tudo e de todos, mas, na verdade, estou cada vez mais próxima. Nunca me entendeste, mas não faz mal. Eu também mal te compreendia. Continuo a não ir direta para casa e a passar mais horas fora do que dentro dela. Continuo a não passar o tempo que devia com a família. Há coisas que não mudam, outras que mudam radicalmente. A tua ausência foi uma delas. Pousei a flôr e não me permiti mais tempo ali. Pelo caminho, constatei que houve muita coisa que eu adquiri de ti. A valorização de pequenos momentos a dois numa relação e o fomentar do companheirismo foram algumas das heranças. Tu és o exemplo na minha vida de como esta pode ser irónica no jogo do “dá por um lado e tira por outro”. Lembro-me disso cada vez que olho para a tatuagem que tenho na perna. Tu não ias achar piada nenhuma. Mas foi e será sempre dedicada a ti. Obrigada por teres existido na minha vida, simplesmente obrigada a todos os anjos caídos. Do que resta, guardo eu com muito carinho nos baús da memória que “carregarei” comigo o resto da minha caminhada até, também eu, cair.


7 comentários:

  1. Obrigada eu por leres :) speaking from the heart!

    ResponderEliminar
  2. O mais brutal de ser humano é poder sentir coisas tão bonitas como o amor ou a saudade. O teu texto fez-me sentir, não sei bem o quê, mas qualquer coisa que se pode descrever como 'um quentinho cá dentro'. É a primeira vez que te leio e gostei muito! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada Sara! Espero ter-te por esse lado mais tempo <3
      beijinhos grandes de aquecer o coração ^.^

      Eliminar
  3. Ana, como sempre escreves maravilhosamente bem. Como eu me identifico, como eu sei o que é sentir tudo isso. Em um ano perdi muitas pessoas, em 3 meses perdi um dos meus pilares! Foi muito dificil, mas ficaram memórias muito boas! Obrigado pelo bom momento que passei ao te ler! Beijinho grande Ana.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada eu por me leres Pedro e pelos teus sempre fantásticos comentários! <3
      beijinho

      Eliminar
  4. Texto delicioso, carregado de sentimento, saudade. Transmite um carinho e algo que me remonta a lembrar de quem já partiu que amei também.
    Obrigada por transmitires tanto por simples palavras, mas que tanto dizem!
    Beijinhos*

    ResponderEliminar