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Quase em Surdina...




Sábado de sol quente. Um passeio de história. Um compasso de espera num café a soar Bossa Nova. A vista da Janela esbarra na parede do prédio vizinho, gasta em vários tons de castanho terra e em texturas diversificadas e desniveladas pelo tempo, que se precipita até uma pequena ruela ali entalada.
Agora, que já não tenho maneira de esconder, um estranho repara no meu olhar que, enquanto seguro a chávena de capuccino entre as mãos e os cotovelos na mesa, se reteve a admirar aquela parede que refletia o quente sol que brilhava lá fora. Sentou-se à minha mesa sem pedir permissão e, em tom de quem não quer interromper o meu momento de transe, pergunta-me em que águas navega a minha mente. Sem o olhar, respondo que ainda permaneço em terra, para poder contemplar como mesmo as ruínas podem constituir o belo. Olhou pela janela em silêncio e, após uns momentos, quase em surdina questionou de quem seriam as ruínas que eu contemplava. Esta questão desbloqueou e levou a minha consciência a trabalhar noutro sentido, como se a mecânica do relógio tivesse sido adulterada e o sentido dos ponteiros alterado. Olhei em frente para encarar quem corrompia os meus pensamentos, somente para encontrar uma cadeira vazia. Não procurei, aceitei a ausência como se nunca aquela presença ali tivesse existido. A voz suave de Astrud Gilberto inundou-me e sorri.
Aceito o descompasso do relógio como um novo compasso e, observando os grãos de café esteticamente colocados na espuma do meu capuccino, agora a boiarem no restante líquido no fundo da minha chávena, recordo o que uma protagonista escreve num email para quem já amou: “(…)Vivemos infelizes por ter medo de mudanças, de ver a nossa vida acabar em ruínas. Então, olhei à minha volta e pensei em todo o caos pelo qual aquele sítio já tinha passado. A forma como foi adaptado, queimado, destruído e ainda assim arranjou formas de se construir de novo, e senti-me tranquilizada. Talvez a minha vida não tenha sido assim tão caótica. É apenas o mundo que o é, e a armadilha é apegarmo-nos demasiado a ele. Ruínas são um presente. São o caminho para a transformação. (…)” – no Coliseu  de Roma – Júlia Roberts em Comer, Orar e Amar.  E é isso mesmo, não é? Servem-nos os percalços para nos ensinar a estar preparados para todas as transformações, aceitar as novas texturas que nossa vida adquire, admirar o belo das várias cores que agora tem, adaptar os nossos sentidos e continuar. Levantei-me e prossegui o meu caminho com a ideia certa de um novo destino: Roma!


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