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"O Aperaltado!"

foto por TiagoVicente do blog Contrário do Inverso


Já vos aconteceu haver dias em que parece que, independentemente do que vocês digam, parece que toda a gente entende outra coisa qualquer, e nunca o que vocês realmente dizem? A ponto de ficarem descrentes em relação ao que a capacidade interpretativa da outra pessoa terá conseguido desvendar sobre algo que vocês possam ter dito, e que, na verdade, nada tem a ver com o que eles entenderam? Eu tenho dias desses. São destes dias que me fazem chegar ao ponto de baixar os braços, tal é a frustração, que fico com a impressão que, se eu fosse um anime, uma gota enorme me apareceria na fronte!

Mas são dias desses que também me fazem pensar no quão poderosas podem ser as palavras.

O poder das palavras está sempre patente, porque nelas se espelha, se empenha, se renova o que há de mais profundo na condição humana. Muitas vezes não passam de alívio para quem as profere ou de música para os ouvidos de quem as escuta, mas, para mim, a verdade é que as palavras não passam disso mesmo: palavras!

Somos nós que lhes damos sentido e valor; seja a pronunciá-las, a escrevê-las, a lê-las ou a ouvi-las. Estão sempre sujeitas a interpretações. E, às vezes, as pessoas passam demasiado tempo a tentar interpretar em vez de ouvir e ler o que realmente está a ser dito/escrito. Existem também vários paradigmas sociais em relação à palavra como a superstição, a sedução ou a magia (influência significativa positiva e/ou negativa). Analisando estes paradigmas conjugando situações do dia-a-dia, por exemplo, há quem acredite que algo acontece porque se pronunciou isto ou aquilo, mas que com três batidas em objecto de madeira e a enunciação de certas expressões afastamos o perigo. Quando é necessário referir uma realidade menos agradável, ocultamos a mesma com perífrases de carácter eufemista, “aperaltando” o nosso discurso com aspeto sedutor, demostrando assim como as palavras são formas simbólicas de representação do mundo. A interpretação que damos ao que ouvimos deve-se ao nosso instinto de interligar o que ouvimos/lemos ao nosso conhecimento da vida. É a eterna questão de nos identificarmos com o assunto e procurarmos semelhança de pressupostos.
Palavras de um orador, sendo susceptíveis às suposições do ouvinte, tanto podem levar à ascensão de quem as pronuncia como à sua destruição. Podem até manipular massas, dependendo das condicionantes sociais e do teor discursivo.

Se pensássemos que a arte de comunicar deveria estar aliada à arte de ouvir e tentássemos expandir mais as nossas capacidades como bons ouvintes, saberíamos ser melhores comunicadores. Fazer as perguntas certas para obter as respostas mais coerentes. Isto também se aplica a mim, claro! Nestes dias em que sinto que não estou a ser compreendida, talvez esteja, na realidade, a ser má ouvinte e, consequentemente, não me estarei a expressar da maneira mais apropriada a quem me ouve. Será?

Confesso que, quando comecei a escrever este texto, não calculava o tempo que ia demorar a terminar. O paradoxo maior do tema levou-me em vários sentidos, alguns cíclicos e outros becos sem saída. Há vários outros temas ou problemáticas subjugadas, que me fizeram desviar do cerne do tema. As situações diárias de um explícito paradoxo entre o falar e o agir foram um deles. Mas este tema fica para um outro texto que surgirá brevemente :)



"Este não foi o Nosso Primeiro Encontro!"



A cidade natal é o local onde eu nasci e passei a minha infância. Onde trabalho e vivo é o local onde estou agora. Mas também já vivi, estudei e trabalhei aqui e ali. Falo deambulando alegremente sobre o assunto, o que me dá aquele ar aparente de espírito desligado. Sou interrompida com uma pergunta pertinente: “Sim, mas... onde é que sentes que pertences?” Fiquei perplexa com a prepotência e a complexidade da pergunta em conversa tão superficial e por mim desvalorizada. Para pergunta prepotente, resposta genérica e sem conteúdo: “Pertenço ao mundo!”. 
Mas, de mim para mim, “Onde é que eu pertenço?” – pensei, e deixei em suspenso.
Este não foi o “nosso primeiro encontro”. Juntou-se o suspenso ao suspenso. O raciocínio leva-me a pensar que estagnei nesta sensação permanente de “passagem” (permitam-me o contra-senso) temperada com intensidade e transitoriedade q.b. Pelo menos é fiel a esta linha de pensamento que tenho vivido.  Considero que a pertença não é apenas o ser parte de, mas sim ser parte ativa. Está relacionada a uma ideia de enraizamento, uma realidade estrutural que nos incumbe de identificar, estabilizar e assegurar a nossa personalidade. Mas, contrapondo, porque é que temos de pertencer a lado algum ou a coisa alguma para nos “personalizarmos”?
Cada um aceita-se e enquadra-se mais ou menos inconscientemente, conforme um sem número de contextos que nos foram impostos e que condicionam os nossos comportamentos sociais. Uma das tendências do individuo é a nítida persistência em resgatar elementos de origem, procurar o enquandramento em determinado grupo social mecanismos estes de procura de um sentido de pertença. Eu não sou exceção à regra, suponho.
Mas se nunca soube identificar o sítio onde pertenço, a razão poderá residir no facto de eu querer pertencer a mim própria, no sentido mais completo e lato que me for permitido. E quando eu falto a mim mesma, onde me refugio? Naqueles que me apoiam, nos que me amam incondicionalmente.
Por isso, respondendo a esta pergunta suspensa há tempo demais, eu acredito que pertenço a mim mesma e aos “meus”. Seja onde esse lugar for.

"À Conversa Com..." #5


Sempre defendi que acreditar é o primeiro passo para as coisas acontecerem! Há tantos e tão bons exemplos desta força que parece absurdo que não tenhamos esta ideia mais entranhada em nós. Eu não precisei de ir muito longe para ter uma conversa com um belo exemplar de que a perseverança é o melhor aliado para alcançar o que nos parece quase impossível de acontecer.


página facebook



O meu convidado é o ilustrador português João Rodrigues. Romântico, curioso, auto didata, apaixonado pelas artes, conhecemo-nos por interesses em comum e trabalhamos conjuntamente para uma atividade que eu desenvolvi para a associação que na altura presidia, há dois anos atrás.  







Neste momento a lançar o seu primeiro livro de ilustrações para a editora Zero a Oito, João tem exposto em vários locais em Lisboa e no Porto, tendo divulgado os seus trabalhos mais massivamente nos últimos dois anos. As suas ilustrações são a expressão de si próprio e do que o apaixona na vida. “A principal fonte de inspiração é o amor, a busca daquela pessoa especial”, revelou ao P3.  



Elementos representantes do amor, da água, da música e da melancolia de quem procura “aquela pessoa” estão patentes nos seus desenhos, expressos em linhas inspiradas nos desenhos simples das crianças e em traços do adulto de boa índole que se tornou.  Com o 12º ano de escolaridade, aprendeu as ferramentas necessárias para desenvolver o seu próprio estilo recriando o que quem admira criava.







contato: joaorodriguesilustracao@gmail.com

Com influências mais óbvias de Tim Burton, há também quem mencione O Principezinho como um “faz lembrar", mas a verdade é que as ilustrações do João já têm a sua própria personalidade, pois quando vemos um boneco de cabeça grande, com um olho maior do que o outro ou torto, a primeira reação é pensar que será da autoria de João Rodrigues.  O retrato e as caricaturas são também outra área do desenho em que tem desenvolvido trabalhos para encomendas personalizadas.
Por convite, aliou-se também a algumas marcas para a produção de artigos de utilidade como cadernos, guarda-chuvas, chinelos, velas e álbuns.  A PrincessPea foi uma das primeiras aliadas, um projeto 100% português com materiais e ilustradores portugueses. WonderPapers, o primeiro projeto de Scrapbooking em Portugal foi outra das parcerias, bem como a Candle In.



Sendo as suas ilustrações um reflexo do que o apaixona na vida, também faz bodyboard e toca piano... só não fala francês! Humilde, acaba sempre por se referir aos seus ofícios como “nada de especial”, mas quem vê e ouve sabe dar-lhe o devido valor. Espero que isso continue a servir de incentivo para levar para frente tudo o que ele aspira.

Despedi-me do João com o desejo de brevemente poder ir ver a sua exposição em Londres um dia destes J




João Rodrigues

João Rodrigues

Quase em Surdina...




Sábado de sol quente. Um passeio de história. Um compasso de espera num café a soar Bossa Nova. A vista da Janela esbarra na parede do prédio vizinho, gasta em vários tons de castanho terra e em texturas diversificadas e desniveladas pelo tempo, que se precipita até uma pequena ruela ali entalada.
Agora, que já não tenho maneira de esconder, um estranho repara no meu olhar que, enquanto seguro a chávena de capuccino entre as mãos e os cotovelos na mesa, se reteve a admirar aquela parede que refletia o quente sol que brilhava lá fora. Sentou-se à minha mesa sem pedir permissão e, em tom de quem não quer interromper o meu momento de transe, pergunta-me em que águas navega a minha mente. Sem o olhar, respondo que ainda permaneço em terra, para poder contemplar como mesmo as ruínas podem constituir o belo. Olhou pela janela em silêncio e, após uns momentos, quase em surdina questionou de quem seriam as ruínas que eu contemplava. Esta questão desbloqueou e levou a minha consciência a trabalhar noutro sentido, como se a mecânica do relógio tivesse sido adulterada e o sentido dos ponteiros alterado. Olhei em frente para encarar quem corrompia os meus pensamentos, somente para encontrar uma cadeira vazia. Não procurei, aceitei a ausência como se nunca aquela presença ali tivesse existido. A voz suave de Astrud Gilberto inundou-me e sorri.
Aceito o descompasso do relógio como um novo compasso e, observando os grãos de café esteticamente colocados na espuma do meu capuccino, agora a boiarem no restante líquido no fundo da minha chávena, recordo o que uma protagonista escreve num email para quem já amou: “(…)Vivemos infelizes por ter medo de mudanças, de ver a nossa vida acabar em ruínas. Então, olhei à minha volta e pensei em todo o caos pelo qual aquele sítio já tinha passado. A forma como foi adaptado, queimado, destruído e ainda assim arranjou formas de se construir de novo, e senti-me tranquilizada. Talvez a minha vida não tenha sido assim tão caótica. É apenas o mundo que o é, e a armadilha é apegarmo-nos demasiado a ele. Ruínas são um presente. São o caminho para a transformação. (…)” – no Coliseu  de Roma – Júlia Roberts em Comer, Orar e Amar.  E é isso mesmo, não é? Servem-nos os percalços para nos ensinar a estar preparados para todas as transformações, aceitar as novas texturas que nossa vida adquire, admirar o belo das várias cores que agora tem, adaptar os nossos sentidos e continuar. Levantei-me e prossegui o meu caminho com a ideia certa de um novo destino: Roma!