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"Uma Menina Bonita no Autocarro"



Primeira viagem de autocarro de 2013. A caminho do trabalho. Vou a desfrutar do meu ato de leitura, que se começa a revelar, de certo modo, uma cómica ironia interpretativa. Poucas foram as vezes que levantei os olhos do meu livro. Mas já próxima da minha saída olhei em volta, observei as expressões que me rodeavam, houve uma que me foi familiar e parei a examinar. Uma rapariga nova, bonita, (talvez) a caminho da faculdade, mas com um ar muito comedido e muito encolhida. Toda a sua postura e expressão transpirava vitimização. De longe se conseguia ver isso. Denotava-se uma ausência, olhar vazio, como se estivesse algures num espaço imaginário à procura de uma razão que não lhe valia no momento. Não é de minha ética tentar entrar em interpretações sobre quem não conheço. Muito menos uma menina bonita do autocarro. Mas reconheci aquela expressão. Já a vi em muitas pessoas e até no reflexo do meu espelho. Existem vários tipos de “vítimas”, as que se auto vitimizam e as que com dignidade se recusam a fazê-lo apesar de o serem. Não quero com isto dizer que não possam haver momentos em que perdemos a perspectiva e entramos naquele loop inconsciente de cegueira. Acontece sim. São inerentes ao ser humano. Mas aquela expressão fez-me lembrar o quanto o constante estado de vitimização me incomoda. Considero que um dos piores sentimentos que podemos ter sobre nós mesmos e sobre os outros é a pena. Aliás, adotei uma frase que utilizo várias vezes para expressar isso mesmo: “Penas têm as galinhas!”. E apesar de ser algo bem vulgar de se dizer, não passa da verdade. Todos nós encontramos, ao longo dos tempos momentos, que nos levam a qualquer um destes tipos de vitimização. E para ambos os casos, precisamos dos outros, nem que seja para táticamente evadir uma discussão racional, substituindo-a pela emotiva acusação, fazendo com que aqueles que se solidarizam nos eximam do dever de discutir o que se deve discutir em termos racionais. Mas ninguém “merece” que alguém tenha pena deles, e nós com certeza não merecemos ter pena de nós mesmos. Custa-me que pessoas que a mim muito me dizem, insistam em manter uma visão delas mesmas de vítimas. Principalmente quando sabem qual a origem do problema e a sua solução, mas estão demasiado “viciadas” para tomar uma atitude. Eu quero estar aqui para os “meus”, estou disponível para ouvir os seus desabafos, para ser o ombro onde chorar ou simplesmente o abraço para o conforto, a companhia para falar da banalidade ou do essencial consoante o que melhor lhes aprouver. No entanto não quero estar para dar a solução, conselhos sobre o que eu não experiênciei, nem a ajuda no que não posso ser, porque tenho noção dos meus limites como “o outro lado”: não podem transpor os verdadeiros limites das pessoas, nem devem de algum modo influenciar o discernimento de alguém só porque num momento de menor clareza ou de fragilidade dissemos algo que não devíamos que se implantou na cabeça da pessoa. Podem achar que esta perspectiva é demasiado radical, mas não faz parte do meu carácter aproveitar-me das fragilidades dos outros. Se tomo esta postura é tão-somente para dar espaço à pessoa em questão de se fortalecer, de criar as suas defesas. Mas prefiro estar com eles sem darem conta, como sombra que acompanha sem atrapalhar. Estou para apoiar, não para julgar ou ajudar a tomarem uma atitude, pois esta tem de ser tomada de consciência e a única pessoa a responsabilizar-se por ela deverá ser a própria. Só espero que esse momento da “menina bonita do autocarro” seja fugaz, que tenha a oportunidade de se reavaliar e entretanto, se nos voltarmos a cruzar, espero reconhecer nela outra expressão que não aquela.

1 comentário:

  1. Deverá ser mesmo um momento, e mesmo que não o seja, tal como dizes, encontrará certamente alguém que lhe dê um ombro e a ajude no que precisar =D

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