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"As Mãos Arrefeceram..."


A caminho de um encontro, decerto perdida e já atrasada, localizo um parque infantil. Está vazio, mas o baloiço ainda se move. Leva-me a crer que, pela ausência de vento, alguém tenha estado ali muito recentemente, mas, por alguma razão, nem me apercebi. Acorri ao baloiço, como se ele precisasse de salvamento. Não consigo evitar o magnetismo que estes sítios exercem sobre mim. Estive uns bons cinco minutos ali a baloiçar alto e mais alto, cada vez mais alto e a rir-me, como se a minha mãe me estivesse a empurrar e eu tivesse sete anos outra vez. Precioso momento. De um salto, saio do baloiço, aterro em pé agora já com 27 anos, e o momento termina. As mãos arrefeceram e, numa tentativa de as aquecer, coloco-as nos bolsos e afasto-me do parque. "Mãos frias, coração quente." Olho, por momentos, pelo canto do olho, somente para contemplar o baloiço ainda a mover-se pela minha presença agora ausente. “Cinco minutos de felicidade, ” – pensei, “já ganhei o meu dia!”

À saída do trabalho, já escuro e a caminho do autocarro. No meu ipod começa uma música da qual sei a letra do início ao fim. Abstraí-me do resto da realidade e comecei a dançar e a cantar como se toda a gente estivesse a ouvir aquela mesma música. É certo que naquele sítio e àquela hora o movimento não era muito, mas a probabilidade de alguém não ter visto/ouvido era praticamente nula. Não me incomodei! Noutro dia, a outra hora… à saída do metro e já a meio caminho para o carro, começa a chover forte. Tinha duas opções, nenhuma delas evitaria molhar-me, por isso optei por abrandar o passo. Transportei-me para uma imagem, como se de um videoclip se tratasse, e, mais uma vez, agora debaixo de chuva e como se estivesse no chuveiro, cantei a música que passava no meu ipod. Foi tal o drama, que, quando cheguei ao carro, e ao olhar-me ao espelho, tive um ataque de riso quando vi a maquilhagem em jeito de gata borralheira sem acesso a desmaquilhante. A música sempre foi parte integrante da minha vida, não fosse ela um dos elementos de “transporte” para outro dos mundos que aprendi a reconhecer. Já houve vários momentos ao longo da minha vida em que optei por me abstrair da realidade para assim viver um momento de felicidade tão inocente como o de uma criança. Oponho-me à razão e remeto-me para a multiplicidade de sentidos que o imaginário me oferece. Considero que manter um certo equilíbrio na vida entre o racional e o imaginário é o que proporciona o espaço necessário para conhecer a minha subjectividade. Ou seja, o que construímos com o nosso imaginário depende da nossa história e cultura, pertencendo a uma parte simbólica do que nos é pessoal, extrapolando os seus limites. A razão ajuda-nos a analisar o nosso imaginário e a aprendermos a explicar a nós próprios os vários “mundos”: tanto o que a vida nos impõe, como aqueles que nós criamos. No texto “Quanto Mais Alto, Maior o Tombo, escrevo sobre expetativas, e também a imaginação depende destas, naturalmente oscilantes, que consequentemente influenciam as nossas opções e que, tal como estas, estão em constante mutação. O imaginário é de certa maneira um reservatório onde guardamos conceitos que nos levam a várias sensações, também necessárias ao estímulo da razão. Este estímulo adquire vários significados, dependendo dos valores adotados por cada um. "Quem tem imaginação, mas não tem cultura possui asas, mas não tem pés." - Joseph Joubert
Estes pequenos momentos, entre outros, são o meu reservatório de felicidade. Quando existe uma lacuna deste sentimento no meu dia-a-dia, mesmo que de modo rebuscado, extraio um pouco do meu imaginário, e eis que surge o sorriso. Nestas alturas, sinto-me quase tentada a concordar irrevogavelmente com Immanuel Kant quando afirma "A felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação." Mas, na verdade, eu acredito que necessitam uma da outra para adquirir o sentido certo, pois,  de certa maneira, sinto-me movida pelos imaginários que engendro, mas ajo consoante o que a “razão” extrai e adapta à realidade da minha vida.



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