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A Menina Que Mudara de Nome

Quando a vida lhe mostrou desde bem cedo, que fragilidades não eram permitidas a este jogo, mudou de nome. Maria José tornara-se o seu nome. Vestia-se como um menino, jogava futebol com os rapazes nos intervalos da escola, andava de bicicleta para todo o lado, subia às árvores e às rochas destemida, para provar que fragilidade não fazia parte do seu vocábulo por mais menina que fosse. Não calçava sapatinhos, recusava vestidos e saias, não gostava de brincadeiras de meninas. Fumava às escondidas, era o melhor pé esquerdo da turma e a melhor guarda-redes do quarteirão. Fazia cabanas de madeira, fogueiras com os rapazes e torneios de Street Fighter II no salão de jogos só pelo gozo de ver os rapazes saírem derrotados. Faltava às aulas para ver o Dragon Ball Z e respondia torto aos professores.
Mas a menina tornou-se mulher, Maria José nunca deixou de ser Maria José e as fragilidades continuavam ali, reprimidas e escondidas. Uma caixa de música, uma flor, um gesto bonito, um baloiço, ainda trazia o seu verdadeiro nome à superfície. "Espírito solitário de fragilidades ao abandono, das quais nunca me soube verdadeiramente defender", afirma! Procurou o seu encontro nos outros, a sua verdadeira identidade, mas Maria José é sempre a sua identidade final. Afinal quem é Maria José, que se tornou mulher, já não joga futebol, já não fuma às escondidas, não faz cabanas nem fogueiras? Mas que no alto do seu sapatinho e vestido em corpo de mulher continua a ver-se simplesmente como a menina que mudara de nome?
Esta é a sua história de vida, tão pouco ou igualmente importante a todas as outras que vamos conhecendo ao longo dos tempos. Mas, na verdade, o que a menina que mudara de nome ainda não percebeu é que Maria José é tão-somente um nome, e que ela é um todo…pois agora é mulher!

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