HOME                    À CONVERSA COM                  O LIVRO                  AO QUILÓMETRO TAL                 ARQUIVO                 

Último Domingo de 2012


Vista para o Cabo da Roca. By PauloCostaPhotography

No último Domingo de 2012, levantei-me às 6:30 da manhã. O corpo pedia cama, mas a cabeça queria ir passear fora das quatro paredes. Partimos em direção ao Cabo da Roca. O GeoCaching surge na vida de cada vez mais pessoas, cada uma com o seu objetivo e conceito. Na minha surgiu há um ano. No entretanto perdi o objetivo de vista e deixei-me absorta pelo betão que nos rodeia na cidade, não me deixando ver o que para mim é o verdadeiro conceito do “jogo”.
Na verdade não sabia ao que ía, não tinha estudado o terreno, nem me preocupei com as dificuldades, ou com a meteorologia. Chegados ao primeiro desfiladeiro, lembro-me de ter pensado logo que este não poderia ser um passeio qualquer, as dificuldades estavam à vista. Terreno escorregadio, picado, apesar de haver um trilho. Mas a ideia de chegar á Pedra da Ursa era demasiado boa. Um daqueles sítios que num passeio normal ao Miradouro do Cabo da Roca nos maravilham de longe. Maré baixa com praia quase sem réstia de pegadas. Fomos dos primeiros a chegar.
Se o espírito que eu transportava para aquele passeio era de “arrastado”, perante os preparativos para escalar a Pedra da Ursa, não deixei que a minha consciência opina-se, e voluntariei-me a ser a primeira a escalar. Força nos braços e nas pernas, equilíbrio, encontrar o sítio certo para nos apoiarmos. Até ao topo! E lá em cima não tive vertigens, não me arrependi, nem sequer pensei que poderia talvez ser das primeiras mulheres em GeoCaching a escalar aquela pedra. Mais uns quantos metros a subir, agora sem seguranças alheias, e virada para o mar a vista era de cortar a respiração. Deixei de ouvir o entusiasmo das pessoas, as conversas e até os meus próprios pensamentos! Sentei-me. Ainda consigo ver aquela imagem gravada nas minhas pálpebras, melhor que qualquer fotografia. Respirar, sentir o sol, ouvir o mar e absorver aquela paisagem foi instintivamente a única preocupação. Os cinco sentidos completamente aliados somente para aquele momento.  
Depois da descida, igualmente entusiasmante, pratica-se a espera pelos outros, a entreajuda no que se pode, e continua-se a caminhada. Subir o que antes se desceu, um novo atalho e um novo objetivo. Mais um desfiladeiro que se desce, um novo trilho, a dificuldade aumenta, um pé escorrega. O truque é descer devagarinho com a ajuda do bastão e ao subir que seja com passada firme respirando como ao ritmo de uma música. E mais uma vez a Natureza presenteia a sua magnificência a quem a quer receber! Inacreditável aquela imensidão ali e nós tão pequeninos achamos que carregamos com problemas do tamanho do mundo, preocupações tão insignificantes perante aquela imagem de tanto e tanta coisa. Gritar a plenos pulmões para os ouvidos que ali não existem, libertar a carga negativa do betão e sentir a verdadeira liberdade por momentos! Liberdade.
Seguimos até ao Guincho Velho, sempre seguidos de um sol que aquecia a alma e dava energia para continuar, agora por um caminho aberto por máquinas para chegarmos a novos trilhos. Demos com ruínas de casas de pedra de antigos pescadores (calculamos nós). Em frente a uma delas no alto do morro, como se de um pequeno miradouro se tratasse, sobressai-se uma rocha na qual me permiti sentar e fumar um cigarro a contemplar aquela imensidão. Tanto de tanta coisa. Ali, simplesmente ali. A permitir-nos viver nela. Mesmo que nós optemos por viver entre betão, o sol continua a raiar e a reflectir no mar luz que se expande por todo aquele manto. A brisa continua a soprar, as nuvens continuam em movimento. Tudo se movimenta, nada pára.
Este foi um passeio de Geocaches sim, mas estes tantos Kilometros, para mim foram mais que isso. Foram espaço para respirar um momento de VIDA. Sim, porque o que é a vida senão uma caminhada em direção a um futuro incerto, por trilhos pouco demarcados ou já trabalhados por outros? Às vezes é preciso descer os desfiladeiros e derrapar em algumas pedras para conseguirmos chegar a sítios lindos, que nos fazem sentir vivos! Às vezes temos de ser pedras para aprendermos a ser bastão. Às vezes é preciso permitirmo-nos sentar e contemplar o que temos e o que nos rodeia, ainda antes de atingirmos o cansaço. É importante sabermos os nossos limites, mas também é sábio sabermos quando necessário ainda muito resta em nós para continuar.  
A esta hora a maioria janta com amigos, família, combinam-se encontros, espera-se fogo-de-artifício. É dia de Festa! Eu escolhi escrever este texto. Por todas as pessoas com quem me cruzei e me vou cruzar nesta caminhada, tenha sido ou venha EU a ser pedra ou bastão, OBRIGADA. Obrigada também por terem sido a minha dificuldade, o obstáculo, o desafio, e por terem sido o apoio, o abraço e o amor na minha vida.   
2013 trará mais de um tudo, mais do desconhecido, mais do mesmo, mais de qualquer coisa. Com dificuldades ou não, importa é vermos o lado bom, sermos seres conscientes de nós mesmo e tomarmos consciência do que nos rodeia…Importa sabermos o que realmente é importante para nós.
…se alguma coisa correr menos bem e não conseguirem ver isto, talvez seja momento ou de usar lentes ou mudar a graduação ;)
Boas entradas.

Sem comentários:

Enviar um comentário