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.o triunfo dos porcos*.



"(...)Um dia, quando estávamos nas fazendas de trabalho, vimos um grupo de mulheres a marchar, vindas de um desses campos de concentração. Era aterrorizante. Magras como esqueletos e, apesar disso, obrigavam-nas a carregar com pesados sacos de trigo às costas. Quando alguma caía, os guardas chicoteavam-na. Finalmente eles sentaram-se perto de um lago de jardim e começaram a almoçar, obrigando-as a ficar de pé e verem-nos comer. Zombavam delas e depois faziam com que algumas dançassem nuas na sua frente. Reconheci um dos guardas. Era um dos antigos criados do Palast-Hotel. Ria mais que qualquer dos outros.(...)" Fräulein, James MacGovern

É engraçado como basta pegar num individuo e colocá-lo noutro ambiente e ele transforma-se. Um pouco mais de poder e revela-se.
A veracidade destes factos transtorna qualquer pessoa que tenha o mínimo de príncipios humanos, toca a sensibilidade de quem realmente é provido dela.  
Se analisarmos correctamente este pequeno excerto deparamo-nos com uma mistura enorme de sentimentos, ou melhor, a falta deles. Num simples parágrafo. Dará para imaginar num espaço temporal de...6 anos por exemplo? A olhos nus...para toda a gente ver, apoiado e consentido por milhares de pessoas. O venerar da ameça, da humilhação dos humanos por humanos. Por uma vontade puramente carnificina. Custa tomar conhecimento do que realmente a nossa própria espécie é capaz de fazer, desde das maior proezas ás maiores atrocidades, infelizmente este conhecimento não chegou a todos por papel.
O que lemos remonta aos tempos de guerra no ano de 1945, por uma primeira edição portuguesa de 1955, palavras ainda sedentas de alguma liberdade de leitura...ainda que gostássemos de nos iludir que isto não acontece mais, que é passado...acontece e é presente. Esta exaltação da falta de principios e humanidade, até mesmo de coração, poderia passar despercebida, por andar agora camuflada, bem vestida e ornamentada. Só não passa porque são ainda muitos os relatos na primeira pessoa e no pretérito perfeito.
Assusta-me o facto de, na verdade, eu própria ser parte desta espécie, a Humana. Também eu ainda não sei todos os meus limites e os reconditos da minha personalidade. Vão sendo desvendados mas é ainda imenso o enigma que ela fomenta em mim e em cada um de nós. Somos de facto uma espécie interessante, mas também bastante perigosos para a nossa espécie, para as outras e até para connosco mesmos.

* Título sugerido pela inspirada Ana Garcia :P
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Comentado por Sandra Coelho - comentadora & co-autora oficial deste blog - nomeada agorinha mesmo lol

Gostei muito do teu texto, gorgeous! :-)
Além de estar bem escrito, coloca o dedo numa serie de feridas: as atrocidades que ainda hoje acontecem, sob outras formas e mascaras; o facto do poder revelar as pessoas e aquela que me fez pensar mais: isto somos nós, especie humana. Capazes do melhor e do pior.
Ha uns anos, em conversas com amigos, um deles perguntou se erámos capazes de matar alguem...e a primeira reaccão foi logo dizer "claro que nao, nunca!" mas depois,pensámos melhor... se disso dependesse a vida de alguem que amamos..ou em legitima defesa..e realmente nós nao sabemos do que somos capazes ate as circunstancia nos colocarem à prova...
dá que pensar...e é bom pensar!
pensar é como andar à chuva..incomoda.. (la dizia o Fernando Pessoa)
ainda assim é bom! 

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1 comentário:

  1. Nós, seres humanos, somos capazes de tanta coisa que nós próprios desconhecemos e acabamos por ser auto-destrutivos... O que, ainda bem, não é o meu caso.
    Se há assuntos difíceis para mim, este que tu mostraste é um deles. Para te ser sincera ainda me ocorreram uma série de coisas que poderia escrever mas prefiro escolher bem as palavras e dar-tas a conhecer mais tarde. Nunca fui capaz de ver a lista de Schindler, A Vida é Bela, entre outros... Tudo o que retrate as atrocidades que infligimos uns aos outros, deixa-me tão incomodada que não sou capaz de ver nem por 5 minutos.
    Olha, não é por acaso que tenho um amor especial por animais. Deles sim sabemos o que esperar em grande parte da vezes, em toda a minha vida tive animais e nunca fui traída nem magoada por nenhum, porque nunca lhes dei motivo para tal é como a frase "What you give is what you get." e ás vezes até recebemos mais deles, do que eles de nós.
    Somos seres tão racionais, mas tão racionais que não cabe tudo em nós! - ironicamente falando, claro.

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